No final de 2023, o Premier Padel torna-se o único circuito principal a existir, ao adquirir o World Padel Tour. O WPT existia desde 2013 e conseguiu mudar totalmente o mundo do padel profissional em apenas 10 anos. Uma retrospetiva sobre o que fica na memória e os avanços na modalidade que este circuito proporcionou ao longo dos anos.
O que é o World Padel Tour?
Em 2013, o World Padel Tour é criado para repensar o circuito profissional, anteriormente chamado Pro Padel Tour (PPT). Pela primeira vez, é a empresa de cerveja espanhola Damm que detém a maioria do capital do WPT e que se apoia na opinião dos jogadores para mudar a lógica do circuito. O objetivo era valorizar ao máximo a montra do desporto aos olhos de todos: os jogadores. O WPT implementou então várias medidas:
- A abertura do circuito fora de Espanha. Agora que o circuito estava bem consolidado em Espanha, era preciso exportá-lo para o mostrar ao maior número de pessoas e tornar o padel um desporto internacional. Começaram então a surgir torneios de padel na América do Sul e na Europa, além dos já existentes em Espanha: Buenos Aires, Mexico, Roma, Paris, entre outros. Deste modo, os espetadores de cada país puderam desfrutar da descoberta desta modalidade e ver os melhores do mundo em ação. O resultado? O número de praticantes federados e de campos de padel disparou nos países abrangidos.
- O aumento do prize money para os jogadores. Para viajar aos 4 cantos do globo para disputar torneios, os jogadores precisam de fundos adicionais e de uma motivação extra para jogar perante o mundo inteiro. O prize money dos torneios foi um dos motores dos jogadores para se aliarem ao WPT contra o PPT.
- A transmissão dos jogos através dos meios de comunicação. O World Padel Tour foi também bastante vanguardista ao disponibilizar rapidamente a transmissão dos torneios na televisão em determinados países e, de forma mais alargada, gratuitamente no YouTube. Em França, foi a Canal + que adquiriu os direitos. Com uma modalidade em plena expansão, trata-se de uma fonte de receitas essencial para a organização. O canal de YouTube e o site do WPT foram muito bem desenvolvidos: rankings de padel e resultados em direto, resumos e melhores momentos disponibilizados rapidamente… Tudo para satisfazer o utilizador e tornar a sua experiência no padel o mais completa possível.
Ao longo destes 10 anos, o WPT alcançou inúmeros progressos para potenciar a popularidade do padel em todo o mundo, procurando sempre corresponder às expectativas dos jogadores. O objetivo foi cumprido com uma popularidade crescente, comprovada pela presença dos adeptos no último torneio WPT em dezembro de 2023, em Barcelona: 15 779 espetadores presentes, um recorde histórico batido.
Porque é que o World Padel Tour foi substituído pelo Premier Padel?
Há alguns anos que a relação entre o World Padel Tour e os seus jogadores é tensa. Já em 2018, a maioria dos jogadores quase tinha migrado para outro circuito, o International Padel Tour, hoje renomeado A1Padel. Foi in extremis que o circuito conseguiu manter os seus jogadores, que continuavam a desejar uma remuneração mais elevada e mais bem distribuída entre todos os jogadores. O WPT aceitou e alinhou-se com essas exigências, acrescentando uma cláusula de quase exclusividade ao circuito, até dezembro de 2023, data do término do contrato.
Mas em 2021, a criação de um circuito paralelo chamado Premier Padel pela QSI (Qatar Sports Investments), liderada pelo presidente do PSG Nasser Al-Khelaïfi, mudou tudo. Fortalecidos pela criação da PPA (Professional Padel Association), que defenderá os interesses dos jogadores por intermédio do presidente Alejandro Galan, os profissionais começam a olhar para o Premier Padel, que lhes garante uma maior segurança financeira (prize money duplicado em relação ao WPT). Contudo, o contrato de exclusividade do WPT bloqueia-os. O resultado? Uma batalha jurídica e financeira entre os jogadores, o Premier Padel e o WPT.
O World Padel Tour vê-se encurralado pelo investimento financeiro do Catar e do Premier Padel, assumindo o papel que coube ao PPT alguns anos antes. Apesar da sua resistência (muitas vezes forçada), a temporada de 2023 decorre de forma alternada entre torneios WPT e Premier Padel, e o circuito detido pela Damm acaba por ser adquirido pela QSI, tornando-se o único circuito principal a partir de 2024.
Premier Padel vs World Padel Tour: quais as diferenças?
2024 é a primeira época do Premier Padel como circuito principal e há várias diferenças a assinalar face ao WPT. Em primeiro lugar, o número de torneios: após os 27 torneios do WPT e os 8 torneios do Premier Padel em 2023, realizam-se 24 torneios em 2024, além do Master Finals em dezembro. 4 Majors, comparáveis aos torneios do Grand Slam no ténis, em Paris, Roma, Mexico e Doha, estando os restantes torneios divididos em P1 e P2, que atribuem uma pontuação menor. No final do ano, o último torneio que reúne as melhores duplas da temporada, o Master Finals, disputa-se em Barcelona para a grande final. Menos torneios, mais prize money e estrelas satisfeitas com a organização deste circuito.
Mudança WPT e Premier Padel: quais as consequências?
Esta mudança ocorreu ao longo de 2 anos e foi bastante progressiva; os jogadores puderam adaptar-se gradualmente aos novos torneios. No entanto, existiram consequências decorrentes desta alteração e desta nova forma de funcionamento. Em primeiro lugar, a diminuição do número de torneios, sobretudo em Espanha. Algumas cidades e alguns organizadores lamentam deixar de ter torneios nas suas localidades. Esta dimensão de internacionalização reflete-se igualmente no tratamento dado aos jogadores hispanófonos com classificação mais baixa (abaixo do top 30 mundial), sobrerrepresentados em relação a outros países europeus que estão em pleno desenvolvimento no padel. De facto, estes jogadores europeus têm maiores vantagens nos direitos de inscrição em torneios ou fases de qualificação. Chegou-se mesmo ao ponto de debater a criação de uma 2.ª associação de jogadores, destinada aos hispanófonos com ranking mais baixo.
No que diz respeito às desigualdades, as disparidades entre os jogadores de topo que são cabeças de série e os restantes não foram corrigidas, tendo chegado mesmo a agravar-se nalguns casos. O Premier Padel aposta fortemente nestes grandes nomes, as melhores duplas do mundo, deixando por vezes os restantes em segundo plano. Sendo o padel um desporto ainda em desenvolvimento, torna-se por vezes difícil para os profissionais fora do top 30 mundial viver da modalidade e suportar as despesas de deslocação, sobretudo com a redução do número de torneios em Espanha.
Em conclusão, o World Padel Tour foi um catalisador formidável para o padel a nível internacional, dando a conhecer esta modalidade ao maior número de pessoas através dos seus torneios e das suas estrelas. Serviu também para criar um verdadeiro entusiasmo em torno do circuito profissional e dar maior visibilidade mediática aos melhores jogadores do mundo. Foi igualmente o palco de inúmeros momentos marcantes, como a separação de Fernando Belasteguin e Juan Martin Diaz, o domínio de Juan Lebron e Alejandro Galan ou a ascensão de jovens como Arturo Coello e Agustin Tapia. Todos estes acontecimentos fizeram do WPT o circuito profissional mais importante do padel até ao momento.
A chegada ao comando do Premier Padel pode ser vista como uma evolução natural daquilo que o WPT iniciou. A ideia é crescer a nível internacional como um circuito de referência, atraindo multidões do mundo inteiro para ver as suas estrelas competirem por todo o globo. Há que ter o cuidado, ainda assim, de não perder a própria essência do padel, tão cara a todos os praticantes de padel profissionais ou amadores: a partilha e o prazer dentro do campo.
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